Imersão
Quatro caminhos para entender a metodologia do Schumacher College
23 de Julho de 2019
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tendência

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No mês de junho passei 12 dias imersa no Schumacher College no curso "Co-criando o futuro emergente - Certificado em Liderança e Facilitação". Localizado no Sul da Inglaterra, próximo a cidade de Totnes, no estado de Devon, a escola ensina estudantes do mundo todo com sua metodologia voltada às mudanças ecológicas e sociais, há 20 anos. Os cursos são totalmente imersivos, experienciais e participativos e, normalmente, os alunos ficam hospedados no próprio colégio - dividindo as atividades educacionais com os afazeres da comunidade.

Fundado por Satish Kumar, ex-monge, ativista ecológico e pacifista, o Schumacher College é destino certo para quem quer se antecipar às transformações do planeta e das organizações. Batizado em homenagem ao economista inglês Ernst Friedrich Schumacher, autor do livro "O segredo é ser pequeno", tem em sua estrutura um prédio do século 15 - local onde coração, mente e mãos se unem para pensar no nosso futuro.

Leveza, complexidade descomplicada e natureza guiaram cada momento do curso. As analogias com a natureza e a celebração à vida também pautaram o sentimento - éramos cerca de 25 pessoas, de todas as nacionalidades, liderados pela Jenny Mackewn. Um dos pré-requisitos para participar era ter um projeto de impacto (ou apenas uma ideia) para ser desenvolvido durante o período de residência. Agora, ao longo de oito meses, temos encontros online mensais para nos apoiar e desenvolvê-los. Um novo encontro em março de 2020 finaliza o ciclo de aprendizagem.

Listei os quatro grandes aprendizados dessa imersão que foi, sem dúvidas, uma das mais transformadoras que passei!

 

#1 A liderança deve ser vista como um processo.

Liderança é diferente de liderar. A palavra liderança foi chave durante os 12 dias de imersão, já que era o tema central do curso. E a cada nova aula, atividade imersiva ou trabalho realizado para a comunidade o conceito foi ficando mais claro.

Para mim, mais do que estar a frente de um time, liderar significa sustentar a energia para não se perder o propósito comum. Se o objetivo é claro, precisa-se guiar o grupo, através do seu engajamento e do comprometimento com processo e resultado final.

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Algumas frases que marcaram:

"A liderança do futuro tem características femininas". (Satish Kumar)

"A primeira pessoa que fez perguntas tinha cabeça e coração abertos". (Jenny Mackewn)

"Quando você começa a servir as pessoas, e não a você mesmo, acontece a mudança". (Joana Mao)

"Liderança é uma escolha que se faz, e que você deve fazer a todo momento, a toda hora. Deve ser constantemente renovada". (Satish Kumar)

"Um líder trabalha a partir de: compaixão, não-violência, humildade, amor e sabedoria". (Satish Kumar)

"Para ser um líder, não existe PhD. Basta um coração e uma convicção". (Satish Kumar)

 

#2 Inspiração na natureza: aplique biomimética dentro das organizações.

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A biomimética é uma área da ciência que estuda as estruturas biológicas e as suas funções para aprender novas soluções para desafios. Aplicar esse conhecimento em diferentes domínios, como engenharia, design, administração e tecnologia, ajuda a trazer novos olhares para os problemas recorrentes.

Esse olhar pauta todas as experiências no Schumacher College. Isso porque a escola se propõe a entregar aos seus alunos um método de ensino transformador, baseado na ecologia e nas mudanças sociais. E o contato próximo com a natureza se torna fundamental para esse propósito.

Um dos primeiros conceitos estudados no curso foi "A liderança dos patos selvagens" (tradução livre para Wild Goose Leadership), conteúdo assinado pela coordenadora do curso Jenny Mackewn, e que traz uma analogia com a essência desses animais.

 

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Algumas das situações que nos fazem aprender com os patos:

1. Esses tipos de aves quando vão migrar e precisam voar por longas distâncias, formam um "V", em grupo, para melhorar a aerodinâmica e, consequentemente, "cansar" menos;

2. Nessa revoada, os animais dividem a liderança - nem sempre o que está posicionado a frente do grupo é o mesmo. A rotação de posições (ou liderança) permite novos pontos de vista e reforça a interdependência do bando;

3. Eles tomam decisões juntos: se um para, todos param para descansar ou se alimentar;

4. Além disso, se um fica doente ou precisa se afastar dos demais, pelo menos duas outras aves o acompanham e ficam ao seu lado até, muitas vezes, a sua morte. Liderar é cuidar!

É um exemplo clássico de liderança compartilhada e de espírito de equipe.

#3 Confie no poder da comunidade.

 

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O Schumacher College e, principalmente, a Teoria U - base teórica do curso que participei, de autoria do Otto Scharmer - trabalha muito a desconstrução individual como ferramenta para reconstrução de futuros desejáveis, mais positivos e regenerativos. No entanto, fazer essa imersão profunda, pra mim, só faz sentido se houver um senso de pertencimento muito forte.

O futuro é cada vez mais unido, local e compartilhado. Por isso, participar e entender como a comunidade do Schumacher College se autogere foi uma experiência incrível. A escola tem alguns funcionários, mas a maioria do trabalho é realizada por voluntários, que se mudam para Devon por alguns meses, e pelos alunos, que acabam aprendendo sobre humildade e "fazer com as mãos".

Na programação do curso, todos os dias havia uma atividade a ser feita, seja ajudar na horta, nos jardins, na cozinha e até mesmo na limpeza das áreas comuns. A corresponsabilidade e o cuidado foram sentimentos compartilhados e que casam muito, também, com o conceito de liderança.

 

#4 O futuro é conectado e incerto.

Além disso, falamos muito sobre "commons", ou bens comuns, em tradução livre. A noção de que a natureza é de todos e parte do todo e, por isso, não devemos mais tratá-la como um "bem" foi muito trabalhada nas atividades imersivas. Essa analogia pode ser trazida para as organizações e a sua forma de trabalhar em um futuro cada vez mais incerto, conectado e imprevisível.

Esse pensamento vem de encontro à Teoria Gaia, que foi apresentada para nossa turma pelo ecologista da escola, Stephan Harding, como um dos olhares para se liderar o futuro. Ele foi aluno e colega nada mais, nada menos, do que de James Lovelock - que também ministrou aulas no Schumacher -, e deu uma super aula regada à música, questionamentos sobre o que é ciência e dados alarmantes sobre as mudanças climáticas.

O que vem agora?!


De volta para a rotina, os projetos e os desafios, sinto que como líder da maré minha missão é cada vez mais questionar, refletir e educar sobre o papel das organizações nas mudanças que queremos para o futuro.

O que deixamos como legado, o que abrimos e no que vamos ser cada vez mais transparentes?

Se o propósito é comum, vale a pena trabalharmos com noções de exclusividade e a partir de portas fechadas?

O que é de fato crescimento, sucesso e performance?

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Luiza Gaidzinski Carneiro |
23 de Julho de 2019
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